O nosso entrevistado de março é Márcio Henrique dos Reis Lopes, de Juiz de Fora. Como ele bem diz em seu “bate-papo” com a gente, está afastado das mesas, não dos amigos. Conheça um pouco mais da vida do Márcio e o que ele pensa.
1. Faça uma breve apresentação a seu respeito. Onde e quando nasceu? Onde e quando iniciou no futebol de mesa? Como aconteceu seu início na modalidade de três toques? Quais os tipos de regra que você já praticou? Qual a maior satisfação que o futebol de mesa lhe proporcionou?
Nasci em 20 de setembro de 1949, na cidade de Juiz de Fora. Lembro-me claramente quando ganhei meu primeiro time de botão, era do Botafogo e meu irmão ganhou do Fluminense. Não sou muito de datas, mas foi quando tinha de 8 para 9 anos. Jogávamos no chão, às vezes ficava difícil devido a algumas saliências nos tacos que compunham o “estádio”.
Um pouco mais tarde, quando comecei a fazer o ginásio, na Academia, fui integrante de um grupo de alunos que tínhamos algumas obrigações religiosas, mas também momentos de diversão. Uma delas era o jogo de botões. Havia muitos campeonatos e naquela época já me interessei em fazer meus próprios botões. Existiam alguns famosos, por exemplo, “glostora”, que era um preparado para se passar nos cabelos masculinos. Vinha em um vidro cuja tampa se prestava a fazer excelentes jogadores. Jogava-se com dadinho em mesas próprias para tal e era no leva-leva. Enquanto estive estudando na Academia sempre participei e isto foi até o final de 1969, quando terminei o científico e saí para servir o exército. O tempo passou e vez por outra disputava, com meus primos, algumas partidas até o dia que conheci o Ivan (aquele que jogava com pente), que me falou dos botonistas da Academia. Fui um dia ver e conheci o Tavares. O Manuel já não fazia parte, tinha acabado de sair, acho que em 1984. Pude, neste dia, tomar conhecimento da existência da regra de 3 toques e daí para frente não me afastar mais. Estou afastado dos campos, não dos amigos e notícias da CBFM. Sou muito grato ao José Henrique por ter me aceitado no quadro de botonistas do Tupi.
O futebol de mesa me trouxe muitas alegrias. Claro que títulos trazem muita satisfação, mas vejo que o melhor mesmo foram as grandes amizades que tenho hoje, advindas do futebol de mesa, pessoas que tenho um grande relacionamento apesar de não jogarem mais.
2. Você encontra-se afastado das competições. Quanto tempo? Qual o principal motivo que o levou a tomar essa decisão?
Estou afastado desde 2006. Já havia me afastado por um longo tempo, acho que de 1995 até 2002, mas sem perder contato com as pessoas e as coisas do futebol de mesa. Eu considero que na vida a gente prioriza o que fazer. Não que não tivesse tempo, mas o interesse foi diminuindo a partir do campeonato de Seniors em 1994. Fiquei em off até que o Stumpf me chamou para integrar a equipe da Portuguesa e após vários convites acabei aceitando. Notei que não havia mudado muita coisa e no ano que fomos escolhidos para compor a diretoria da CBFM afastei-me novamente. O que falta mesmo é motivação.
3. Você tem planos para voltar a competir ainda este ano?
Já estive fazendo planos de disputar pelo menos uma competição e deveria ser individual para não prejudicar ninguém. Seria uma forma de rever os amigos, sinto saudades das competições acirradas, das grandes disputas, grandes rivalidades.
4. O que o levou a optar pelo futebol de mesa como modalidade esportiva, em detrimento de outro esporte?
Não considero hoje o futebol de mesa como uma modalidade esportiva, tenho como um hobby, não sei se é a palavra certa, o certo é que posso fazer isto a qualquer momento precisando apenas de um companheiro e isto me dá muito prazer. Nunca pratiquei um esporte pensando como esporte e sim como uma forma de exercitar o corpo.
5. O que representa o futebol de mesa para você? Quanto tempo de sua semana você dedica à prática do futebol de mesa? Sua família apóia você?
Hoje considero como um passatempo agradável, mas teve época de muita euforia, praticava todos os dias mesmo que sozinho. Acho que é fundamental ter apoio de sua família, caso contrário, fica difícil disputar um campeonato fora de sua cidade, viajar, passar dias fora. Todos sabem que eu sempre fui um privilegiado, minha apoiadora mor me acompanhava onde quer que eu fosse.
6. Qual o nome de seu time e o que o levou a esta escolha?
“Condor” foi o nome que escolhi talvez por achar que poderia alçar vôos cada vez mais altos e assim sempre foi.
7. Quais os botonistas que, ao longo de sua carreira, mais o incentivaram?
O Ivan deu o pontapé inicial, mas tive incentivo do Tavares e ao longo do tempo vários outros que sempre davam um empurrãozinho. Gosto muito de lembrar do José Henrique, apesar de algumas diferenças no pensar. Sou muito grato a ele por toda a ajuda que sempre me deu.
8. Quais os botonistas que mais o influenciaram e impressionaram?
Talvez pela convivência maior, o Carlos Antônio foi o que mais me marcou, por sua técnica, sua conduta e o mais importante, por seu companheirismo e grande amizade que temos até hoje.
9. Quais os botonistas que mais o decepcionaram?
Não passei por esta fase, não consigo me lembrar de alguém que tenha me decepcionado, só tenho lembranças de alegrias, claro, de vez em quando uma rusga aqui outra ali, mas nada sério.
10. Em sua opinião, qual o tipo de time ideal, bainha, altura, diâmetro etc.?
Aí é o ponto. O time ideal sempre foi aquele que eu jogava. Tive e tenho a felicidade de poder fazer meus próprios times, perdi a conta, não sei quantos. Fui me aprimorando com o passar do tempo, hoje gosto do time mais para atacar, bainhas de um modo geral com 25°, botões leves apesar de levar “chega prá lá” toda hora. É um dos grandes prazeres ver meus times sobre a mesa, independente de bainha, altura, diâmetro, etc..
11. Sempre falam muito bem dos botões confeccionados por você. Sem contar seu segredo, qual é o principal ingrediente nesta fórmula?
Como disse anteriormente, sempre gostei de fazer meus times. No início, quando eram feitos de tampas de produtos de limpeza ou beleza, eram lixados (parte de baixo) no cimento e a bainha feita com caco de vidro. Quando comecei na regra de 3 toques, já utilizava um motor que tenho até hoje e uso da mesma maneira para dar acabamento nos “meninos”. Continuo usando o caco de vidro, é muito cortante e de fácil aquisição. Lembro-me que o primeiro time que fiz era de um acrílico transparente vermelho pintado na parte interna. Joguei uma única vez, foi vendido na segunda apresentação. Hoje utilizo um torno para facilitar o serviço, não sou adepto de colagens de escudos, gosto de trabalhar os emblemas, o que às vezes inviabiliza a confecção. Trabalho com resina de poliéster e acrílico. Não faço com a intenção de lucros, faço simplesmente pelo prazer de vê-los depois em alguma mesa ou, o que é mais comum, pela amizade com os botonistas. Tive a oportunidade de participar de campeonatos brasileiros onde 50% dos times haviam sido confeccionados por mim, é muita alegria. Acho que o grande segredo é jogar, participar das disputas. Isto me leva a ver o que todos gostam, o que é comum entre os botonistas.
12. O futebol de mesa não se resume apenas aos títulos e troféus conquistados. Quais foram as suas maiores alegrias na carreira? E as maiores tristezas ou decepções?
As alegrias são muitas, títulos sempre trazem isto para nós. Tive a felicidade de ser bicampeão brasileiro interclubes, campeão mineiro individual duas vezes, um deles invicto, campeão mineiro interclubes e campeão brasileiro de seniors. Minha grande tristeza foi não ter conquistado o brasileiro individual, fui vice-campeão perdendo a final para o Thiago Stephan (2 x 1). Decepção sempre passou muito longe de mim. O grande troféu, aquele que muito me orgulha, são as amizades que sempre tive e continuo guardando até hoje, mesmo afastado.
13. Qual outro fabricante de botões o impressionou?
Sempre gostei dos times feitos pelo Sérgio Castilho, não pelas bainhas, mas pelo capricho, botões muito bem acabados, muito bem polidos. Tenho um time feito por ele, comprei para ter como um troféu, guardo com muito carinho. Lembro-me que, quando comecei na regra 3 toques, o fera era o Aurélio. Só que ele fazia somente os patacos, os botões eram cavados por outras pessoas. Os times do Roberto, de São José do Rio Preto, também têm muita aceitação hoje, muito bem feitos, bem trabalhados. Gostaria de conhecer outros, mas não estou tendo esta oportunidade.
14. Qual a sua partida que você chamaria de inesquecível?
Talvez a partida que mais tenha me emocionado foi contra o Cota Mil, no Rio de Janeiro, em 1991. Nossa equipe (Carlos Antônio, Tavares, Miguel e eu) disputou a semifinal e no sorteio caiu para eu jogar contra o José Ricardo, que era o cobrão da equipe. Combinamos que meu jogo estava fora, era dado como vitória para o adversário, até porque já havia enfrentado esse mesmo técnico na primeira fase e perdido por 3 x 1. Mas no meu interior, seria a partida da revelação. Fui muito feliz, num jogo muito fechado de ambas as partes, saí vencedor (2 x 0). Por mais incrível que possa parecer, este jogo me marcou tanto que lembro até hoje de jogadas que aconteceram. Logo depois venceríamos o “Dos Oito aos Oitenta”, de Campinas, e seríamos bicampeões brasileiros interclubes.
15. Qual a sua pior partida, aquela que você não gostaria de lembrar?
Tive a sorte de contar com a colaboração de meus adversários. Quando começamos na regra de 3 toques, somos alvos de muitas goleadas mas, não passei por isto, não me recordo de alguma partida que tenha sido tão ruim. Nunca fui um botonista de fazer partidas bonitas, acho que sou um botonista objetivo, sem muitas firulas.
16. Descreva um fato pitoresco presenciado por você acontecido no futebol de mesa, dentro ou fora da mesa.
Lembro-me de um jogo com o Vander, em Belo Horizonte. Quem apitava era o Galba. Por volta dos 7 minutos do 1º tempo, o Vander pediu a gol e bola encontrava-se quase sobre a linha lateral, na minha intermediária. Ele chutou e entrou. O Galba, por sua vez, invalidou o lance dizendo que o jogador havia saído de campo antes de tocar a bola. Isto custou muita discussão entre os dois. Conclusão: aqueles sete minutos foram anulados e começamos a partida novamente. Gerou muita gozação no local da disputa.
17. Existe uma conscientização generalizada em favor do "fair-play" nas competições esportivas. O que tira você do sério numa competição de futebol de mesa?
Acho que a única coisa que me irrita no futebol de mesa é jogar com um adversário que é incapaz de saber arbitrar suas próprias jogadas, não é capaz de acusar alguma irregularidade que tenha passado despercebido ao árbitro. Ainda existem, mas são poucos, graças a Deus.
18. Qual o clube de futebol de mesa mais organizado em que você já jogou?
Com um conhecimento bem limitado, penso que o Grêmio Mineiro é bem organizado, não tive a felicidade de jogar por lá. Tive a alegria de participar no Tupi, que era bem organizado àquela época.
19. Qual a competição mais organizada de que você tomou parte?
A competição mais bem organizada que vi eu não participei. Foi um campeonato brasileiro interclubes realizado em 1989, no Central Shopping, em Belo Horizonte. Hoje existe um padrão nos campeonatos, horários sendo cumpridos rigorosamente, regulamentos bem conhecidos e um número menor de participantes que facilita muito.
20. Quais são as maiores qualidades e os defeitos da regra de três toques?
A qualidade maior é fazer com que o jogo seja pensado, calculado. O defeito é a dificuldade de assimilação por quem está começando, são muitas regras e muitas exceções. Esta dificuldade é notada até nos mais antigos que vez por outra se vêem em situações embaraçosas.
21. Que sugestões você daria para a nossa regra ficar ainda melhor?
A manutenção da Comissão de Regras é fundamental, manter um grupo para estudar sugestões. Estabelecer metas para simplificação da regra, pedir a ajuda de todos. Esta pergunta deveria ser remetida aos clubes para que seus integrantes sugerissem mudanças.
22. Em sua opinião, qual o maior problema enfrentado pela CBFM 3 toques no momento?
Acho que por depender exclusivamente do praticante do futebol de mesa, o maior problema é o financeiro. As grandes distâncias entre as cidades, não ter uma estrutura para recebimento de pessoas, e sedes para realização dos campeonatos faz com que fique cara a participação e manutenção de botonistas.
23. Que sugestões você daria para que o nosso movimento se torne mais atrativo, buscando novos adeptos?
O grande dificultador é nossa regra, muito complexa, cheia de detalhes.
24. Como você vê o atual momento do futebol de mesa em Juiz de Fora? Quais suas sugestões e expectativas em relação ao movimento na cidade?
Juiz de Fora já foi palco de grandes campeonatos. Vejo hoje muito afastada, os clubes não apóiam. Sem ajuda torna-se muito difícil manter o futebol de mesa. Os botonistas ficam mudando sempre para poder continuar jogando e com isto o número de adeptos, que já foi muito grande, está reduzido a um pequeno número que continua lutando bravamente para a continuidade do movimento.
25. Atualmente você ocupa cargo de direção em algum clube, associação, federação ou confederação?
Não. Até o final de 2009 fazia parte da diretoria da CBFM, agora estou livre. Mantenho vivo o registro de pessoa jurídica do Clube Manchester de Futebol de Mesa, clube que criei em virtude de divisões no Tupi, que agregava um grande número de botonistas tornando impossível a participação de todos nos campeonatos.
26. Quais são seus projetos para o futuro no nosso movimento?
Estou um pouco descrente no movimento. Se Deus não der uma mãozinha, não vejo com bons olhos. Cada ano que passa diminui o número de clubes e botonistas. Jamais imaginei que ACFB fosse acabar um dia. Penso que será preciso fazer o trabalho que João Paulo Mury fez no início, abrir novas cidades, mostrar como é feito, ajudar de alguma forma. A gente sabe, através da internet, que em vários locais é praticada a nossa regra sem nenhuma assistência pela CBFM.
27. É comum em nossas conversas surgirem listas dos dez mais, o "TOP TEN". Em sua opinião, quais os dez melhores técnicos da nossa regra?
Acho que citar 10 botonistas é complicado. Alguns a gente via todo dia, outros não, talvez duas vezes por ano. Gosto de lembrar daqueles que vi jogar e que sempre considerei muito técnicos: Carlos Antônio sempre foi minha grande visão, em quem sempre procurei me espelhar. O Renato sempre me encantou. José Ricardo pelo estilo de jogo. Tive a felicidade de ver o Walter Morgado jogando, que tranqüilidade! Hoje existem outros nomes, o jogo do Vander me agrada muito. O Stumpf, o Bruno, todos com muita objetividade.
28. Quais os melhores dirigentes do futebol de mesa com que você já trabalhou?
Acho que o José Henrique merece um lugar de muito destaque. Juiz de Fora tem dois momentos: um antes e outro depois do José Henrique. Grande incentivador e um dos mais vibrantes que tive oportunidade de conhecer.
29. Quais os dez melhores árbitros do futebol de mesa?
Gosto de todas as arbitragens, o que faz a diferença é o conhecimento da regra e atenção durante as partidas.
30. Um sonho que você ainda não realizou no futebol de mesa?
Acho que ainda é possível realizar o único sonho que faltou: ser campeão brasileiro individual. Só que a vida andou e hoje talvez já não seja um desejo tão forte, me sinto muito realizado. Acho que criar times me fez mais conhecido que jogando, isto me deixa feliz.
31. Finalizando, deixe o seu recado ou impressões sobre o tema que preferir.
Achei muito importante para o movimento que o pessoal do DF assumisse a CBFM. Precisamos de novas idéias, novos dirigentes. Espero que tenham um mandato tranquilo e com muitas realizações.
Gostaria de agradecer a oportunidade de manifestar meus pensamentos através desta entrevista, apesar de estar distante fui lembrado. Agradeço o carinho do grande amigo José Ricardo.